A Arte de Comunicar para o bem e para o mal

16/10/2022

Comunicar-se bem é uma arte. Arte no sentido de requerer maestria, esmero, cuidado, conhecimento, e dom.

A utilização da linguagem na comunicação é uma ferramenta poderosa - para o bem, e para o mal, e não é simplesmente observando o exercício da habilidade que a gente vai conseguir identificar as nuances que direcionarão esses caminhos de intenções.

A comunicação sempre foi ferramenta de manipulação, e ganhou estratégias de impacto relevante no mundo com a realidade da tecnologia digital. Os gatilhos mentais, por exemplo, sempre estiveram presentes nos discursos estratégicos de líderes - em qualquer dimensão de influência, porque eles - os gatilhos - nada mais são do que o uso estratégico de frases, informações e jargões capazes de seduzir e ganhar a atenção e o engajamento do público. Muito antes do advento da virtualidade, o uso de gatilhos mentais, ao longo da história, chegaram ganhar proporções trágicas, como ódio, guerra e mortes, num  mundo de interações físicas presenciais.

A arte da comunicação para o bem e para o mal talvez possa ser entendida por meio de uma alegoria com a arte da pintura. Por exemplo: a intensidade das emoções de um Van Gogh, a genialidade criativa de um Picasso, ou a estética e o lirismo da brasilidade de Portinari, não podem ser copiadas, mas existem técnicas no campo de uma ilegalidade profissional de cópia que levam a um resultado visual muito similar dessas obras, imitações de gente que estuda e se dedica à prática (nefasta e talentosa) da falsificação, e que pode enganar, e fazer parecer que estamos diante de uma originalidade.

No processo da comunicação, o mesmo pode acontecer,.
Certa vez, no curso de História da Arte na faculdade, a professora nos apresentou uma atividade interessante. Ela trouxe para a aula uma atividade teste:
Colocou diante de todos nós várias telas que retratavam a história de Chapeuzinho Vermelho supostamente pintadas por diferentes artistas famosos, e nós teríamos que descobrir quem havia pintado cada uma delas, validando, assim, quanto havíamos aprendido sobre os aspectos característicos de cada artista. Ou seja, através do que já havíamos conhecido, no curso, sobre o estilo de cada um, conseguiríamos identificar e deduzir o autor de cada uma daquelas telas.
Éramos bons alunos, e teríamos acertado quase todos se fossem de fato obras legitimas.
Acontece que, na verdade, uma única pessoa, habilidosa e treinada, pintou cada uma das telas como se fosse usando as características e estilo de diferentes pintores, uma releitura de Chapeuzinho Vermelho a partir do olhar de cada um dos pintores selecionados.
Foi uma pegadinha interessante, porque alguns dos artistas apresentados sequer foram contemporâneos de Charles Perroult ou dos Irmãos Grimm - os autores e donos das versões da fábula.

Com essa associação em mente, a gente pode perceber também que, dependendo do contexto, do nível, conteúdo e objetivo da comunicação, a habilidade e intenção do falante (dono da mensagem) pode ser uma grande cilada. E muita gente vai levar pra casa, ostentar e defender como verdadeiro, autêntico, e original.

Mas como saber o que é verdadeiro? Que filtro aplicar nessa falsificação de valores?

Creio eu que educação e conhecimento são aliados de peso. Ouvir especialistas, comparar versões, conhecer a história, avaliar os custos envolvidos e o valor agregado pode ajudar. É fácil? Não, não é. Mas é possível não sair por aí comprando pirataria humana, e levando gato por lebre.

Às vezes, é melhor prestigiar um artista anônimo, desses que expões suas obras na praça, cheios originalidade, idealismo e sonhos, do que pendurar uma cópia barata que se apropria de algo que deveria ser inviolável, e que acaba ganhando espaço, contaminando ideais e decisões sagradas na vida.
Já ouviram o ditado antigo: nem tudo que reluz é ouro? Pois bem, não é mesmo.

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