Os Sonâmbulos Sociais e a Banalização do Mal

08/11/2022
"Homens que não pensam são como sonâmbulos" 

- Frase de Hannah Arendt, Filósofa Judia, nascida na Alemanha, já no sec XX, em 1906.

Você sabe quem denunciava aos oficiais nazistas as casas onde havia judeus escondidos? Os vizinhos. Sim, os vizinhos; muitos deles religiosos tradicionais, educados, e patriotas.

Hoje, a gente assiste aos filmes e estuda sobre as atrocidades do holocausto, e fica perplexo - como um ser humano foi capaz de tamanha atrocidade com outros seres humanos? Mas, enquanto a atrocidade acontecia, a maioria das pessoas que se submetia à obediência cega ao nazismo, não considerava a si mesmo um agente ou facilitador do mal. Eram pessoas normais, talvez como eu e você, não necessariamente mal-intencionadas. Elas entendiam que, como cidadãos, deveriam cooperar com a causa nacionalista, por ser importante e necessária.

Num grupo de seguidores, de qualquer ordem, causa, ou regime, eu considero que existam pelo menos quatro perfis comportamentais:

1) os aliados, os que se identificam com a ideologia, compreendem o propósito, e ajudam a difundir a ideia;

2) os medrosos (ou covardes), que se sentem coagidos, e, embora se incomodem com a situação, têm medo das consequências, preferindo não se envolver, para não colocar em risco sua segurança ou conforto;

3) os imaturos intelectuais, que são aqueles que têm dificuldade genuína de compreender as questões, explorar informações e fazer associação entre os fatos e as consequências; e

4)os sonâmbulos - gente que não pensa, que consome ideologias prontas, repete jargões, e cumpre ordens no automático, muitas vezes prejudicando os outro, sem julgar a si mesmo culpado. Gente que banaliza o mal, que torna uma ação estarrecedora em algo comum, como se, por exemplo, explodir bombas ou disparar tiros no lugar de fogos de artifício num evento fosse a mesma coisa, parte do cerimonial. Gente que reverbera frases de efeito como "varinha de condão" de fé, e aprisiona padrões religiosos como rótulo de santidade. Essa gente vive a vida como um sonâmbulo acha que está acordado.

Uma mente iluminada, reflete - em todos os sentidos.

Sabe aquela lâmpada que costumamos usar como ícone de ideia? Pois é, a associação se deve ao fato de que pensar é iluminar a nossa escuridão.

cogito ergo sum

Já dizia Descartes (século XVII) - Penso, logo existo.

Quem pensa estaciona na estrada para socorrer um homem ferido, mesmo que ele não seja seu conterrâneo; quem pensa oferece água para uma mulher (ou qualquer pessoa) sedenta ao seu lado, mesmo que sua aparência e comportamento não sigam os seus padrões; quem pensa anda com pescadores, doutores e empresários, e os considera iguais.

Quem pensa, enxerga e identifica o mal por seus frutos, e, ao invés de banalizá-lo, resiste, e advoga em favor do bem - não em sua aparência, mas em sua essência.


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