Velho é quem não renova os sentidos

Envelhecer nos faz revisitar porões, baús e malas antigas. O que encontramos nesses lugares nos leva de volta ao passado, mas quem vai até o passado não é quem nele viveu, é o "eu do presente", às vezes ressignificado e até cicatrizado, mas talvez ainda com memória de dor e arrependimentos intensos.
É muito gratificante (apesar de doloroso) entrar em contato com tudo que fomos, e poder transformar essas lembranças a partir de quem somos hoje - que, supostamente, deveria ser a melhor versão da nossa essência, mas nem sempre é assim, e, se for assim, pode custar caro, pois pode custar o preço de romper com pessoas, com nossas ideologias passadas, com crenças marcadas com sangue, ferro e fogo em variados contextos - familiar, religioso, social, etc. Mas esse é um processo importantíssimo para a restauração do nosso eu.
Muita coisa que eu escrevi, por exemplo, há uns cindo anos atrás, não representa mais quem eu sou e como eu penso hoje em dia. Sei que pode causar estranheza, mas não vejo incoerência quando revisito isso, vejo um processo natural do meu ser, que, ao ser submetido a novas experiências, informações e conhecimento, tem escolhido refletir, seguir aprendendo, e sendo afetado pelo tempo. Não é fácil quanto parece escrevendo, nem acontece da noite pro dia.
O natural é que a maturidade vá chegando devagar, mas pode acontecer dela vir de uma crise aguda profunda. Cada pessoa tem seu tempo, suas experiências, seu olhar sobre si e sobre a vida. O estágio de maturidade emocional não segue a data de aniversário, nem os cabelos brancos; talvez siga os sofrimentos envolvidos, mas ainda assim, não há como prever as condições e a estrutura de cada um em suas respectivas estações de vida.
Estamos diante de uma condição para a qual não há técnica para um resultado de sucesso. As receitas disponíveis nasceram de experiências pessoais compartilhadas, de quem desbravou territórios, e também de quem sucumbiu diante do cansaço e da falta de esperança. Dizem que sábio é aquele que aprende com as experiências dos outros, sem precisar aprender na própria pele.
Somos a geração que está aprendendo a envelhecer num mundo que também está aprendendo a lidar com a nova realidade de uma população madura expressiva, intelectual e politicamente ativa, e ainda capaz de influenciar e fazer diferença, embora ainda não o faça.
Somos a revolução. Seremos referência histórica para que a sociedade aprenda, e possa sobreviver com mais saúde, além de redefinir conceitos, parâmetros, oportunidades e procedimentos num novo cenário social de gente longeva e economicamente produtiva.
Esta tendência não tem caminho de volta. Porém, uma vida saudável não diz respeito somente a ter condições de seguir o fluxo do movimento socioeconômico; é preciso renovar o entendimento de presente, passado e futuro. Ficar preso em qualquer uma dessas visões de mundo não é bom. A gente não deve viver no passado, mas aprender com ele; e também não deve ocupar-se exageradamente com o futuro, mas preparar-se para ele. Aceitar o que o momento presente nos propõe é uma inestimável chance de renovação pessoal.
Velho é quem não renova os sentidos. Quem olha, ouve, toca sempre do mesmo jeito, e fala sempre as mesmas coisas. Tem gente jovem envelhecida, e gente madura cheia de vida.
